sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Diálogos Inspiradores

Nos dias 17 e 18 de julho estivemos no 6º Encontro Nacional dos Românticos Conspiradores, em Paraisópolis, MG. Muitos encontros num único evento! Oportunidade para renovar expectativas e tecer redes em favor de mudanças.

Em resposta ao convite para integrar a programação, nossa concepção foi apresentar uma vivência para a plenária, envolvendo a reflexão, criação e apresentação para todos os participantes.

A vivência concebida foi "Diálogos Inspiradores", mistura de 'ação comunicativa' com a ludicidade das artes cênicas. Uma das participantes, Bruna Aline Scaramboni, nos brindou com suas considerações no texto abaixo:


"O Encontro Nacional dos Românticos Conspiradores (Enarc) deste ano mobilizou seus participantes para a busca do fortalecimento das redes de apoio entre aqueles que defendem uma educação democrática. Os princípios que movem as idéias e ações dos Românticos Conspiradores estão reunidos na Carta de Princípios. Estes mesmos princípios também inspiraram as atividades realizadas no Encontro, e por isso, vale a pena destacar um deles, como por exemplo, o princípio número 5, Educar-se na Democracia
“5 – Educar-se na Democracia. A educação que prepara para a democracia deve se dar através de práticas não-autoritárias, que permitam a ampla participação de educandos, dos educadores, das famílias e da comunidade. Só é possível uma educação para a ação cidadã se a educação for pela e na ação cidadã. As práticas educativas promotoras da liberdade, autonomia, respeito, responsabilidade, eqüidade e solidariedade devem estar associadas aos princípios anteriores para permitir que atinjamos o objetivo maior da auto-responsabilização social” (Carta de Princípios – Núcleo RC/SP)[1].

Uma dessas atividades, Diálogos Inspiradores, por exemplo, buscou criar espaços de reflexão e diálogo entre todas as pessoas interessadas em novas possibilidades na Educação ou em sua melhoria. A atividade foi conduzida por Mauro Rego e Valéria Roças, autores do livro Conversa e Cura. Diálogos inspiradores é uma dinâmica que estimula a criação de caminhos para o diálogo com o outro – com os que pensam de forma semelhante ou diferente de nós. O desafio proposto na dinâmica consiste em refletir em como abrir caminhos para um diálogo verdadeiro em que não está em jogo invalidar ou menosprezar ideias opostas, mas estabelecer uma troca e assim abrir espaço para a escuta.
Há tempos que vivemos uma crise de paradigmas em vários setores da vida, e na Educação não é diferente. A necessidade de dialogar impõe-se como a condição para que se possam construir coletivamente novos e melhores caminhos para os nossos problemas. A Educação pode ser efetivamente um instrumento de construção de valores éticos e de vínculos que são fundamentais no desenvolvimento da criança e jovem para uma vida adulta autônoma e responsável. Para isso é preciso questionar nossa concepção de escola como edifício e único local possível para a Educação. Como diz o professor José Pacheco, “as escolas são pessoas”. E o diálogo impõe-se com toda a sua potência política e criativa como um caminho possível para a construção de realizações coletivas e voltadas para o bem-estar das pessoas. Para aqueles que defendem e se aproximam de uma educação que promova o respeito, a autonomia e a ética, a dinâmica colocou a eles o desafio de avaliar suas próprias ideias, assim como, a oportunidade de colocar-se no lugar do outro, de pensar sob outras perspectivas e posicionamentos.    
Os participantes reuniram-se em grupos bastante diversificados, com crianças, adultos, jovens; com professores, gestores, artistas e estudantes. A primeira tarefa consistia em construir diálogos a partir de questões sensíveis a cada um dos agentes sociais: alunos, professores, gestores e familiares/responsáveis. Como participante da dinâmica posso dizer que existiu entre nós uma relação respeitosa e de troca, em que dentro do real possível todos que quiseram se colocar foram ouvidos e tiveram suas questões acolhidas. Cada grupo teve como tarefa pensar em questões específicas referentes a cada um dos agentes. Dessa reflexão coletiva emergiram diferentes visões sobre educação, escola e aprendizagem, e a partir delas construíram-se diálogos com os pais, gestores, professores e alunos. Cada um dos grupos refletiu sob a perspectiva dos diversos agentes sociais e sobre como eles dialogariam entre si a respeito de formas inovadoras de Educação, outras concepções de escola e do processo de ensino-aprendizagem.  
O grupo que refletiu sob a perspectiva dos alunos trouxe para os diálogos questões como: “De que maneira pensar o processo ensino-aprendizagem sem provas, notas ou uma grade curricular específica para cada série ou ciclo?”; “Por que e para que precisamos aprender determinados conteúdos?”; “Por que precisamos ser avaliados através de provas?” Ou então, “Como irei estudar sem a pressão das provas?”. Ensaiou-se algumas respostas a essas questões sob os vários posicionamentos existentes na sociedade atual, seja no sentido de sinalizar para a necessidade de uma transformação nas práticas e relações educacionais, seja no sentido de aprimorar práticas tradicionais. Sob a perspectiva dos gestores escolares, abordou-se a questão da evasão e do fracasso escolar: Qual tipo de educação temos de fazer para se enfrentar efetivamente problemas como evasão, fracasso escolar e o desinteresse dos alunos? Será que os alunos saem da escola com aprendizagens significativas? Tais questões levaram à discussão sobre o papel da escola: Será que a função da escola é o de preparar exclusivamente para atuar no mercado de trabalho e ter bom desempenho em vestibulares?
Sob a perspectiva dos professores, o grupo discutiu a prática pedagógica: De que maneira devo criar condições para despertar a curiosidade e o interesse dos meus alunos? Em que medida a transmissão de conteúdos organizados em grades curriculares contribuem com o aprendizado dos alunos? Em seguida, surgiu a pergunta: Por que os alunos não aprendem todos os conteúdos transmitidos? Por que muitos saem da educação básica sem saber ler e escrever satisfatoriamente? Será que o problema é a falta de disciplina? A indisciplina é a causa do baixo desempenho e desinteresse dos alunos? Na conversa entre familiares/responsáveis, uma das mães, preocupada com o desempenho insatisfatório de seu filho, questiona um plano de curso que impõe um mesmo ritmo de aprendizado a todos. O ritmo imposto pelo plano de curso deve ser igual para pessoas com diferentes características, experiências, potenciais e limitações? Por fim, finalizamos com difíceis questões que perpassaram todas as conversas e que precisam ser acolhidas e significadas por todos nós: Qual é a finalidade da escola? Que tipo de escola e educação desejamos construir? A resposta a esta pergunta sinaliza para o tipo de sociedade que desejamos construir para os próximos anos.
No Enarc enfatizou-se a educação como construção coletiva, e para isso, devemos criar espaços de diálogo. A dinâmica Diálogos inspiradores contribuiu para essa tarefa ao estimular de forma criativa, a conversa, a troca e a escuta. Como vimos, essa atividade foi utilizada com professores, artistas, estudantes, gestores e pode ser uma fonte de inspiração para os educadores e arte-educadores que queiram estimular a construção de diálogos inspiradores nos mais variados espaços educativos, inclusive, a sala de aula."

[Bruna Aline Scaramboni é educadora na área de ciências humanas, com graduação e mestrado em Ciências Sociais, e atua no ensino médio no Centro Paula Souza, em São Paulo.]
[1] Para consultar Carta de Princípios acessehttp://romanticosconspira.wixsite.com/rcss/blank-1


Com a contribuição da Bruna Aline, temos mais subsídios para prosseguir fomentando diálogos!

A vivência tem um registro no youtube, que, embora sintético, traduz em parte o seu desenvolvimento.
Está em https://www.youtube.com/watch?v=sqY1zuLpPiY.

 Registro dos Diálogos Inspiradores em Paraisópolis